Porto Heróico

Berta Alves de Sousa (1906-1997)

Ref. ava181804

Porto Heróico

Notas editoriais

Renata Oliveira

 

De Berta Alves de Sousa conhecemos apenas duas obras para sopros: Moleirinha (1971), um quinteto para sopros, e Porto Heróico (1951) para banda.

Porto Heróico é uma marcha de concerto escrita em 1951 para a Banda Militar do Porto. Foi estreada em Janeiro de 1952 num concerto no Jardim da Cordoaria, da cidade que lhe empresta o nome. O manuscrito original está, possivelmente, perdido, tendo sido consultado para esta edição crítica um manuscrito de copista. Esta edição é baseada numa fotocópia deste manuscrito do acervo pessoal de João Pedro Mendes dos Santos, com consulta, na revisão, de versão idêntica constante do espólio de Berta Alves de Sousa na Biblioteca do Conservatório de Música do Porto.

Como mencionado na biografia a esta edição, Berta estudou em Paris. Já se fazia sentir uma forte influência francesa no contexto das bandas militares portuguesas, visível nos instrumentos presentes na orquestração escolhida, que inclui: Flautim, Flauta, Oboé, Fagote, Requinta, Clarinete em Si bemol (I, II e III), Clarinete Alto, Clarinete Baixo, Saxofone Soprano, Alto, Tenor e Barítono, Fliscorne, Trompetes em Si bemol (I e II), Trompas em Fá (I a IV), Trombone (Solo, I e II), Bombardinos (I e II), Contrabaixo em Mi bemol e Tuba em Si bemol, Timpani e Bateria (caixa, bombo e pratos). Esta seria uma instrumentação para uma banda de primeira classe dentro das bandas militares, pois nem todas as bandas militares desta época em Portugal conseguiriam assegurar uma instrumentação tão completa.

A presença do Clarinete Alto levantou alguma curiosidade, uma vez que é um instrumento que, usualmente, não se encontra presente na grande maioria das bandas portuguesas e, por consequência, também está ausente, frequentemente, em trabalhos de outros compositores do nosso país desse mesmo período[1]. A inclusão deste instrumento nesta obra poderá ter, pelo menos, duas justificações: a Banda Militar do Porto incluía um Clarinete Alto à data, ou é de facto um sinal da influência francesa na escrita de Berta, assimilada eventualmente durante o seu estudo em Paris, onde este instrumento é comummente incluído.

Após este questionamento, encontrámos no livro de Pedro Marquês de Sousa informação que mostra que a Banda da Armada de Lisboa já incluía um Clarinete Alto em 1919[2]. Apesar de ser uma banda militar diferente, podemos equacionar que, por razões práticas, a maioria das bandas militares fossem organizadas de forma similar sempre que possível. Apesar das bandas filarmónicas civis se organizarem tendo por modelo, em geral, as bandas militares, a existência do Clarinete Alto nas mesmas não chegou a ser padrão, como ainda não é nos nossos dias. Assim, não podemos esclarecer definitivamente o que motivou a inclusão deste instrumento.

Como referido acima, Berta Alves de Sousa escreveu uma marcha de concerto e não uma marcha de rua (note-se a presença de tímpanos), adjectivada de Marcha Triunfal e com uma duração aproximada de 4 minutos. Não podemos confirmar se este subtítulo foi atribuído pela própria Berta ou pelo copista do manuscrito. Contudo, é claro que o espírito geral da marcha está de acordo com o termo Triunfal.

As marchas de concerto eram, e ainda são, tocadas como aberturas de concerto pelas bandas portuguesas. Citando André Granjo, podemos fundamentar a sua classificação como tal:

A marcha sinfónica, ou marcha maior, tem uma estrutura similar às marchas de rua, sendo, apesar disso, mais desenvolvida no que concerne a temas e harmonias. Marchas de concerto incluem pequenas variações de tempo, particularmente em secções solísticas ou de trio, [...] para além de incluir uma secção de coda[3].

 

Ainda referindo características estruturais da marcha, podemos destacar a secção marcada Grandioso, comum neste tipo de marchas, que encontramos em marchas internacionalmente conhecidas (por exemplo, The Stars and Stripes Forever de John Philip Sousa). Grandioso é uma secção final de estilo majestoso em tutti completo.

Considerando que Berta foi uma compositora de talento e conhecimento e, provavelmente, por termos consultado um manuscrito de copista onde, certamente, algumas correcções poderiam ter sido já realizadas, não se constatou a existência de correcções ou indicações a adicionar. Contudo, após análise e contando com o apoio do copista Nuno Caetano, acrescentou-se informação adicional:

1) na cópia manuscrita não existe indicação metronómica, cingindo-se a compositora à indicação Tempo de Marcha Militar. A indicação presente nesta edição foi adicionada, com base em dois factores: o primeiro sendo o tempo tradicional das marchas militares portuguesas (cerca de 112 bpm), e o segundo sendo o carácter da marcha em si mesma. Na minha opinião, 100bpm é o tempo que eu, enquanto maestrina, escolheria para a execução da obra. Assim, é sugerido um andamento entre 95 e 105bpm;

2) a instrumentação foi mantida segundo a original na partitura geral, mas foram acrescentadas partes de Tuba em Dó e Bombardino em Si bemol para facilitar a execução da obra pelas bandas actuais.

 



[1] Por exemplo, obras de Sousa Moraes desde 1919, que usam uma instrumentação similar, sem Clarinete Alto.

[2] Pedro Marquês de Sousa, Bandas de Música na História da Música em Portugal (Porto: Fronteira do Caos, 2017), 237.

[3] André Granjo, “The Wind Band Movement in Portugal: Praxis and Constraints” (dissertação de mestrado, Zuid Nederlandse Hogeschool voor Muziek, 2015), 61. Tradução da editora.