4 Canções Portuguesas

David de Souza (1880-1918)

Ref. ava090345

4 Canções Portuguesas

Barca Bela

 

Pescador da barca bela,

Onde vais pescar com ela.

Que é tão bela,

Oh pescador?

Não vês que uma estrela topo

No céu nublado se vela?

Colhe a vela,

Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,

Que a sereia canta bela ...

Mas cautela,

Oh pescador!

Não se enrede uma rede nela,

Que perdido é remo e vela,

Só de vê-la,

Oh pescador.

Pescador da barca bela,

Inda é tempo, foge dela

Foge dela

Oh pescador!

Almeida Garrett

 

 

A Fiandeira

 

Fazes bem Fiandeira mal

De fiar de noite e dia

Essa grosseira linhagem.

Mal empregada canceira

Que tem quem fia na vida.

Eu também fui Fiandeiro

Fiava ternos cuidados

Em vez de Linho Trigueiro

Fez-se-me uma roca em Bocados

E já não sou Fiandeiro

Passava os dias fiando

E só tristezas e dores

Ia enrolando não FUZO. Ai!

Antes não Brando linho

Do que amores em fiar

Chega-se ao cabo do dia

E um esfiar por roca

Sempre da mesma maneira

E depois vem uma canceira

E acaba a gente a chorar

Sobre a MORTALHA que fia

Mal empregada canceira

Que tem quem fia na vida.

João Saraiva

 

 

A uma borboleta

 

Veloz Borboleta,

Que leda voando

Ideias penosas

Me estás avivando:

Insecto Mimoso,

Aos olhos tão grato,

Da minha tirana

Tu és o retrato:

A graça, que ostentas

Nas plumas brilhantes,

Ela tem nos olhos

Gentis, penetrantes;

Tu andas brincando

De flor para flor;

Vagueia Anarda

D'amor em amor.

Barbosa du Bocage

 

Serenata

 

Vem à janela, meu amor querido,

Adorada Flor.

Na solidão da rua Ando Perdido

E Madrugada E

Vem dar-me uma luz viva do teu olhar,

Meu lindo sol

O que há-de ser dos que andam no mar alto

Sem um farol?!

Vem ouvir os meus ais, meus tristes ais,

Minha agonia!

Acorda meu amor, não durmas mais é quase dia!

Vem dar-me o fogo do teu olhar vivo

Tão luzidio

Acorda, meu amor!

Vem-me salvar ...

Morro de frio.

Delfim Guimarães